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23 maio, 2011

Há, então, que desempenhar a vida em vez de vivê-la. Esse sentimento, muito contemporâneo, já foi descrito, com competência, por sociólogos, filósofos, psicanalistas. Mas só um romance, um estupendo romance como Benjamin, pode dar vida a ele. Lendo o romance de Chico Buarque, não precisamos explicá-lo, ou defini-lo; nós o sentimos na pele e, o mais doloroso, sentimos o quanto cada um de nós, seus leitores, também manobramos discretas câmeras interiores, ainda que sem perceber isso. No mundo da imagem, todos estamos engolfados pela visão. “Eu vi” é a frase que corresponde, por excelência, à felicidade moderna. Vi um filme, vi uma peça, vi um jogo de futebol, vi um assassinato, vi uma batida de carro, vi uma briga, um suicídio. Somos todos espectadores, o mundo se converteu numa platéia. E as imagem nos governam, são os deuses contemporâneos”. P. 76

José Castello, O Carrossel luminoso, em Chico Buarque do Brasil, 2004

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