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Diálogo #003 do 7fotografia – Fotografia? Fotografia! Fotografia.* **

20 abril, 2011

Leia o texto completo publicado no blog do 7.

Olho da Rua, fotografia de Joana Pires***

Falar da nossa relação com as imagens é correr o risco de percorrer um caminho repetitivo que, de tão intuitivo e natural, pode parecer óbvio, mas esconde nuances nunca totalmente debatidas. Criamos imagens até quando usamos a imaginação. Criamos imagens para dar conta da nossa vontade de conhecer mais, de compreender mais, são elas que facilitam o nosso contato com o que está à nossa volta. Elas existem desde que o homem existe, desde que o homem, consumido e impregnado por tudo o que vê, se preocupou em também inserir no mundo um pouco de ‘como’ ele via. Com a invenção da fotografia, a produção de imagens se tornou mecânica e entrou, com a ajuda de uma máquina, pela primeira vez, na vida cotidiana, a vida do homem comum. Desde então, nossa produção imagética mantém uma relação muito íntima com a tecnologia.

Pensar as definições e limites do próprio conceito de fotografia sempre gerou polêmicas. Se conceituar nunca foi atitude fácil, a coisa se complicou quando o formato digital passou a massivamente tentar agregar toda a nossa produção cultural que, agora digitalizada, virou código numérico, display eletrônico. A imagem fotográfica (ou algo muito semelhante) não depende mais sequer do aparelho, podendo ser completa simulação, manipulação de pixels. Então, como chamar a fotografia que tem sua estrutura completamente modificada mesmo após o “instante decisivo” (pra brincar com essas nossas repetições)? Como chamar a fotografia que se comunica através da narrativa produzida pelo movimento, a fotografia que é quase filme, como o stopmotion, ou o filme que é quase fotografia?

Me pergunto isso já há um tempo, mas sinto as dúvidas se intensificarem e serem provocadas diante de episódios como o de Michael Wolf, fotógrafo alemão que recebeu menção honrosa no World Press Photo com uma série de fotografias tiradas a partir do Google Street View [link]. Não despertam minha atenção as questões políticas apontadas por algumas opiniões de internautas que sugerem interesse do WPP em divulgação. Fico mesmo impressionada pelo grande debate ontológico que essa escolha provocou – e olha que nem me sinto tão confortável diante de debates ontológicos.

Image #17 de "a series of unfortunate events", trabalho de Michael Wolf

Mas a recorrência de comentários indignados diante das fotos partiu, de forma geral, do questionamento de três idéias básicas:
- tirar fotos de fotografias produzidas por um recurso tecnológico é fotografar?
- essas fotografias são de autoria de quem: do fotógrafo ou do Google?
- o que legitimaria o enquadramento dessas imagens como fotojornalismo?

Todas as questões são polêmicas e dariam um artigo cada (conto com vocês). Mas alguns pontos gerais podem ser tratados para dar início a essa conversa.

A última questão – que me parece um tanto complexa já que pouco trabalhei e pesquisei o fotojornalismo – vai direto a um incômodo bem comum na atividade do fotógrafo: essa coisa da categoria. O que caracteriza cada uma das ramificações da imagem fotográfica que inventamos e que, cada vez mais, se tornam inutilizáveis. Afinal, o que danado é fotojornalismo?
Se a gente fizer um brainstorm das palavras mais óbvias que vem à nossa mente quando pensamos o que é fotojornalismo – informação, documentação, fatos, denúncia, etc – só me aparecem termos que, em muitos argumentos, poderiam ser associados às imagens produzidas por Michael Wolf.

Mas acho que esse incômodo diante do caráter fotojornalístico se mistura muito à segunda principal questão diante da imagem, a questão da autoria. Muito já se contestou o status de autor na história da arte. E, só para citar, podemos nos referir a Duchamp, Richard Prince, Sherrie Levine (tem um artigo legal aqui sobre os dois últimos) e, mais afeito ao bom português, Vik Muniz que, em entrevista a Luciano Trigo, disse umas coisas muito interessantes sobre apropriação:

A apropriação é uma postura conceitual em relação à cópia, pois questiona a propriedade intelectual do objeto ou da imagem. No meu trabalho, eu jamais questiono a importância ou o mérito da fonte. Minha função remete o público diretamente na direção do original. A minha preocupação não é com a autoria e sim com a evolução dos rituais visuais.

Vik segue dizendo que ele não se apropria, ele copia mesmo. É diferente. Ele faz, por exemplo, uma cópia em chocolate de uma imagem visualmente explorada por nossa sociedade. No caso, de Wolf, a apropriação é mais óbvia. Apesar de não tirar o “print screen” do computador, ele faz uma cópia fotográfica das imagens – e qual fotografia pode se dar ao luxo de dizer que não é cópia, não é mesmo?

A questão assustadora é que poucas vezes o fotojornalismo brincou e provocou tanta vertigem diante da questão da autoria como essa série de Wolf. Principalmente depois de tanta celeuma histórica pelo reconhecimento do direito de autor de todo fotojornalista.

Muita gente utiliza o mesmo argumento tantas vezes usado diante da arte abstrata: brincadeira de criança. Mas é isso que diferencia pessoas comuns de pessoas inovadoras: as idéias das últimas questionam fronteiras, não importa se causam repulsa ou aplauso, o que importa é que causam debate.

Muita coisa a se pensar. Me apeguei mesmo foi ao aspecto das fotografias em si. As fotos de Wolf tem ruídos, aliás, são embasadas em ruídos – cursores de mouse à mostra, falta de nitidez, cortes bruscos, distorções de cor, etc. Acho que a série de Wolf tem força, mas fico pensando se tem a mesma força como fotos individuais.

Acredito que qualquer produção de conteúdo é legítima, mas nem por isso boa. E quando penso nisso, não me detenho às fotos de “A Series of Unfortunate Events” mas ao prêmio WPP e principalmente à sua foto do ano. Ronaldo Entler, em artigo bem esclarecedor publicado recentemente no blog Icônica, questionou a premiação, questionou a elaboração da imagem, e os critérios para analisá-la como uma boa fotografia. Acabou debatendo um aspecto que é muito curioso e comum: prêmios de fotojornalismo, muitas vezes, privilegiam o fato à foto.

Pensando nesses aspectos todos e ainda com uma opinião superficial sobre o assunto, eu diria que premiar uma fotografia feita a partir de um gerador da imagem é, na verdade, o mais próximo de enaltecimento do ato de fotografar que o WPP chegou este ano. A “photo of the year”, na verdade, merecia mesmo ganhar um prêmio de fatografia.

E aí fico me perguntando, se premiamos a história ao invés da foto, se analisamos uma imagem como janela do mundo, pelo impacto que o fato provoca na sociedade e pelo caráter inusitado do que ele apresenta, será que realmente entendemos e pensamos na fotografia em si?

* Trechos desse texto foram retirados de um artigo que produzi para o mestrado em Comunicação Social, linha de Mídia e Estética da UFPE.
**Agradecemos particularmente a Queiroga por ter-se declarado interessado em ver essa história pensada aqui nessa mesa 7.
*** A foto do post foi produzida com uma D80, a partir de imagem do Google Street View. É uma apropriação da apropriação da apropriação.

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