Abaporu de Bill Brandt
Alemão de nascimento, William Brandt viveu grande parte de sua história na Inglaterra, sendo, por isso, reconhecido como um dos fotógrafos ingleses mais importantes do século XX. A classificação não é exagera, afinal, não se pode esperar pouco de um fotógrafo cuja formação esteve sob a influência direta de Man Ray. Não é à toa que o surrealismo teve forte peso na obra de Brandt, podendo ser mais identificado nos períodos pós-segunda-guerra, quando o artista já apresentava uma linguagem fotográfica mais amadurecida. Ao longo de todos os anos que dedicou à fotografia, Brandt produziu desde imagens documentais, com foco na denúncia social – como o trabalho English at home, em que documentou as rotinas de vida da sociedade inglesa, marcada por desigualdades – a imagens de forte abstracionismo. Todas, no entanto, caracterizadas pela predileção por preto-e-branco.
A fotografia acima (Hampstead, London, 1956) pertence à segunda metade da carreira de Brandt, fase dedicada aos retratos, às paisagens e aos nus. É o tratamento que o fotógrafo dá aos retratos de corpos femininos nus que consagra-o como um artista com uma linguagem bem peculiar. Ela pertence a uma série de retratos fotografados em Hampstead, em Londres, a partir do ano que marcou o fim da II Guerra Mundial e que, por isso, acredita-se fazer referência à celebração da sobrevivência do corpo num período previamente marcado pela destruição.
É bastante curiosa a colocação do corpo feminino na obra de Brandt. Ao contrário da relação com a sensualidade tão largamente explorada, a mulher na obra de Brandt sugere uma espécie de estranhamento, provocada por uma distorção intensa de suas medidas. Sua presença é oferecida ao espectador por meio de uma perspectiva deformada, capturada com lentes grande-angulares e aguçada pelos close-ups.
Em Hampstead, London, essa característica mantém-se e o fotógrafo retrata uma mulher gigantesca que pode até seduzir, mas principalmente inquieta o espectador como um sonho estranho faz. Nessa imagem vertical, em preto-e-branco, a mulher está sentada no chão, com a perna direita dobrada, provavelmente sobre a perna esquerda, que não aparece de forma clara no quadro. A mulher ocupa a parte central da imagem com seu corpo apontando e preenchendo um pouco do lado direito da foto.
Nessa imagem, predomina uma relação entre a luz e a sombra bastante recorrente na obra de Brandt. O fotógrafo aproveita a luz minuciosamente, como sendo o componente que vai permitir ou vetar ao espectador o acesso à mensagem visual. Nota-se, pela recorrência de sombras quase em preto absoluto, que Brandt oferece apenas algumas partes do corpo da mulher para serem observadas. Outras, mais responsáveis inclusive por sua identidade como mulher – como o rosto ou os seios – são simplesmente escondidas, negadas.
A mulher está sentada no chão, sobre uma espécie de carpete estampado. Mas a distorção provocada pela lente coloca as duas limitações espaciais – chão e parede – quase numa relação de contigüidade vertical. A sensação é de que o solo desliza da parede quase como uma rampa o faz, sem ser de forma brusca, sem provocar rompimentos.
É relevante também destacar a parcela de movimentação que a foto sugere, não apenas pelo ritmo proposto pela relação vertiginosa entre parede e chão, mas principalmente pelo borrão provocado pelo braço da mulher em deslocamento. Isso provoca a impressão de que a mulher não possui braços e talvez nem a outra perna. Algo como uma Vênus de Milo com apenas uma perna, a direita, gigantesca, assustadora, mas intrigante.
Arrisco a propor uma comparação desta imagem com a famosa obra Abaporu (abaixo) de Tarsila do Amaral. Um dos principais trabalhos da pintora, esta obra causou furor no movimento cultural brasileiro da década de 1930. Em entrevista à revista Veja, em 1972, Tarsila afirmou que o quadro causava estranhamento nela mesma, que não sabia de onde havia tirado aquelas formas e proporções. Para a pintora, a figura de perspectiva deformada e quase monstruosa de Abaporu mais parecia uma lembrança psíquica que ela devia guardar inconscientemente, talvez relacionada às empregadas da fazenda de sua família, mulheres corpulentas que contavam histórias e embasavam seus pesadelos de criança.
A monstruosidade quase abaporesca da mulher na foto de Brandt provoca uma dramaticidade, uma atmosfera de ameaça, como se aquela mulher gigante fosse capaz de oferecer algum perigo ao espectador – qualquer perigo, nem que seja o de esmagamento. Com sua imponência de monstro, a mulher de Brandt pode não ser identificada exatamente como uma mulher, mas guarda um movimento, uma curva de corpo, linhas que são traços, índices de figura feminina. Somos obrigados a acreditar na existência dela mas confrontados com a ausência de credibilidade que uma imagem tão distorcida possui. Acho que é o mesmo desafio lançado a nós pelos sonhos: emocionantes porque são reais e incríveis porque não são.






